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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Holocausto Brasileiro



"Holocausto Brasileiro" foi uma das revelações da literatura no ano de 2013. Daniela Arbex, a partir de uma pesquisa que começou em 2009,  escreveu um livro doloroso e esclarecedor, que começa em 1903. Foi nesse ano que o Hospital Colônia de Barbacena iniciou seus trabalhos. O maior hospício do Brasil não prezava pela melhora de seus pacientes, cerca de 60 mil pessoas morreram pela precariedade e as condições desumanas do hospital. 

Em vez de receber realmente pacientes que necessitavam de ajuda médica para suas condições mentais, a Colônia recebia aqueles que a sociedade desprezava, aqueles que necessitavam sumir das ruas. Prostitutas, moradores de ruas, filhas que tinham perdido sua virgindade antes do casamento, mulheres grávidas de seus patrões,... Esses eram os pacientes que dormiam em cima de capim; uma solução do governo da época que não conseguia arrumar leitos para os 5.000 pacientes, levando em conta que o lugar projetado para 200 pessoas; passavam frio e fome, não comiam direito; bebiam água do esgoto e andavam nus pelo hospital. 

Realmente, o Hospital Colônia foi um genocídio brasileiro, onde pessoas foram tratadas como animais e objetos. O livro é construído a partir de personagens que passaram pelo hospital, seja pacientes, médicos, funcionários, e durante a leitura o leitor começa a sentir as dores e o desespero dessas pessoas que foram obrigadas a entregar seus filhos, trabalhar forçado, a se calar em meios as injustiças. "Holocausto Brasileiro" vai caminhando década a década  na história do hospital, mostrando toda a luta de médicos psiquiatras para  melhorar as condições do lugar.

É um livro é doloroso e triste. Daniela escreve de forma clara e objetiva, sem se abster de fatos chocantes e hediondos, como a boa jornalista que é. Ao mesmo tempo, ela consegue passar o seu próprio pesar pelo ocorrido. Já assisti a variadas entrevistas dela,  a  palestras e depoimentos, e posso afirmar que ela também sofreu para escrever esse livro. Ela tinha acabado de ter um filho, e foi atrás de história de mães que tinham que passar fezes em suas barrigas para não descobrirem que estavam grávidas e perderam seus filhos. Não sou mãe, não consigo nem imaginar a dor de perder um filho, mas lendo o livro eu consegui sentir um pouquinho essa dor. 

Daniela Arbex é minha conterrânea, de Juiz de Fora. Formada na mesma universidade na qual eu estudo, ela é um exemplo a se seguir, tanto como jornalista, como escritora. Seu livro é brutal, cada personagem perdeu tudo na vida, por motivos mascarados de pessoas insensíveis. Esse livro merece ser lido para que isso não se repita, nunca mais. Essas histórias acabam denunciando algo que estava a muito esquecido na história brasileira. Porque Barbacena era considerada a cidade dos loucos? Poucos sabiam, poucos entendiam a expressão "trem de louco". Agora, nunca mais quero ouvir, ou a usar. 



domingo, 27 de outubro de 2013

Bling Ring - A Gangue de Hollywood




O que dizer de um livro, de teor jornalístico, que abrange a futilidade da particular geração de adolescentes e jovens que vivemos hoje em dia? Bem, poderíamos dizer que é um livro muito esclarecedor, inteligente e crítico, que mostra uma parte da sociedade que está escondida em meio aos holofotes das mídias comunicacionais. Ao mesmo tempo, é uma narrativa que se atem a fatos interessantes e bizarros, que contribuem para a consolidação de uma discussão muito necessária nos dias atuais: Se não dermos limites às nossas crianças, o que elas se tornarão? 

Nancy Jo Sales resolveu escrever “Bling Ring” após elaborar um artigo para um jornal, com a história de alguns jovens de classe média e alta de Hollywood que resolveram invadir as casas de famosos como Lindsay Lohan, Orlando Bloom, Paris Hilton, para roubar seus pertences, como roupas e sapatos de grifes, relógios caros, e outros itens de valor. A partir do artigo, Nancy ficou motivada a descobrir o que se passava na cabeça desses jovens, que tinham tudo para viver, mas ainda assim necessitavam furtar objetos de casas alheias. 

Como uma boa jornalista, Nancy elabora sua história baseada nas poucas entrevistas que teve com alguns dos personagens. Nick Prugo é um dos principais rostos que compõe a história de Bling Ring. Um jovem que supostamente, por má influência e necessidade de amigos acabou sendo um dos iniciadores na gangue, juntamente com Rachel Lee. O perfil que Nancy traça do garoto é a de um jovem triste, supostamente arrependido de seus atos e com grande necessidade de aparecer na mídia, por motivos judiciais. Na verdade, todos os integrantes da gangue acabaram, uma hora ou outra, aparecendo na mídia em geral. Alexis Neiers, Diana Tamayo e Courtney Ames foram as outras principais integrantes do grupo. O perfil de Alexis é a de uma pessoa completamente fútil, falsa e interesseira. De todos os membros, ela é a mais intrigante, afinal já havia participado de um reality show e tinha a vida que desejava. 

A credibilidade de “Bling Ring” é constituída, além das entrevistas, por pesquisas, e principalmente pelo tato e cautela da autora. Como o livro é um resultado de um processo jornalístico, não sabemos se podemos confiar plenamente nos depoimentos ou lembranças subjetivas dos entrevistados. De qualquer maneiro, é elaborada uma análise completa dos jovens norte-americanos atuais. Eles bebem e se drogam cada vez mais cedo, muitas vezes sem o controle dos pais, que não se importam de seus filhos serem mais preocupados com a aparência,  do que com o bem estar alheio. 

Quanto à resposta da pergunta do primeiro parágrafo, é necessário ler o livro para esclarecimentos mais reveladores. Mas a história por si só já responde a pergunta. Se não controlarmos os jovens e nós, os jovens, não nos controlarmos, continuaremos achando que somos os donos do mundo. Ainda dá tempo de abrir os olhos e percebermos que a vida não são apenas marcas e dinheiro.

P.S.- A história, com o mesmo título, também foi adaptada para o cinema, por Sofia Coppola. 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Jornalismo Literário: Hiroshima

Às vezes eu me pergunto porque eu escolhi cursar jornalismo, uma profissão tão desvalorizada e mal compreendida, mas ao mesmo tempo tão importante para a sociedade. Entendo que, muitas vezes, os jornalistas não são um exemplo a se seguir pela sociedade. Mas quem nunca esteve na pele de um , não entende qual a responsabilidade de transmitir as informações e perspectivas, além de ser formador de opinião, para esta sociedade. O jornalismo atualmente é uma profissão difícil de se seguir, por dois simples fatores: Primeiro, a renda média de um jornalista em minha cidade, ou em qualquer lugar do Brasil,  nos dias fatídicos de hoje, é muito baixa. Segundo, não é necessário diploma para exercer essa profissão. Então, você se pergunta: Por que essa menina cursa jornalismo? Daí eu respondo: John Hersey, Tom Wolfe, Truman Capote, Gay Talese, etc... Esses autores me inspiram diariamente.

Esses são alguns dos autores de jornalismo literário mais conhecidos. O meu preferido é John Hersey. Esse moço aí escreveu Hiroshima, um livro que relata os bombardeios a cidade de Hiroshima, na Segunda Guerra Mundial, pela perspectiva de 6 personagens. Eles relatam o que aconteceu com eles, todo o sofrimento, o instinto de sobrevivência e a tristeza pós-bombardeio. O texto foi primeiramente publicado no Jornal The New Yorker em 1947. Durante todo o mês de agosto, foram publicados quatro partes: "Um clarão silencioso", "O fogo", "Investigam-se os detalhes" e "Flores sobre ruínas". Esses capítulos foram reunidos e mais tarde publicados no formato de um livro. Os livros atuais ainda contém um quinto capítulo, "Depois da catástrofe", que mostra como esses personagens estavam passados 40 anos. 

O artigo no jornal causou impacto em quem leu, principalmente por sua escrita tão reveladora e intensa. Esse tipo de jornalismo é sensacional, afinal o jornalista/autor, além de usar o conteúdo da fonte/personagem, consegue captar emoções pelos gestos e  expressões faciais. Não é apenas fazer perguntas, é transmitir para o papel tudo aquilo que o personagem vivenciou. John Hersey fez tudo isso com maestria. Lendo Hiroshima, eu me coloquei no lugar do Reverendo Kiyoshi Tanimoto e do Padre Wilhelm Kleinsorge (Makoto Takakura), de Hatsuyo Nakamura, lutando pela sobrevivência de seus filhos, pelo sofrimento físico de Masakazu Fujii e Toshiko Sasaki, após a queda da bomba, pela tristeza do jovem médico Terufumi Sasaki, que não podia ajudar ninguém mais. 

É um livro doloroso de se ler. É uma narrativa direta, o autor não faz rodeios para explicar que não havia como escapar da dor física e psicológica. Uma das partes mais chocantes são as descrições da falta de socorro aos feridos. Todos estão tristes e impotentes. 
A situação do Dr. Fujii, do Dr. Kanda e do Dr. Machii — e, por extensão, da maioria dos médicos de Hiroshima — logo após a explosão, com seus consultórios e hospitais destruídos, seu equipa mento disperso, seus próprios corpos incapacitados em diferentes graus, explica por que tantos feridos não receberam cuidados e por que morreram tantos cidadãos que podiam ter sido salvos. Dos 150 médicos existentes em Hiroshima, 65 estavam mortos e os restantes se encontravam, na maioria, feridos. Das 1780 enfermeiras, 1654 estavam igualmente mortas ou impossibilitadas de agir. No hospital da Cruz Vermelha, o maior da cidade, apenas seis médicos de uma equipe de trinta, e dez enfermeiras, dentre mais de duzentas, tinham condições de trabalhar. O Dr. Sasaki era o único médico desse hospital que escapara ileso.
É um relato jornalístico escrito com alma e coração. Uma busca de mais e mais informações para compor algo digno de ser apreciado por leitores ávidos de uma boa história, uma boa escrita, com informação para os fazer crescer como pessoas. Atualmente, o mercado do jornalismo literário vem crescendo, e é interessante perceber como ele é atrativo. "Holocausto Brasileiro", escrito por Daniela Arbex, é um exemplo. Daniela descreve em seu livro, como um hospício em Barbacena, Minas Gerais, foi durante a maior parte do século XX um lugar bárbaro, onde pacientes eram maltratados e a sociedade ficava calada. Um livro que denuncia o que muitas vezes ocorre nos dias de hoje. Futuramente o livro terá um resenha neste blog.

Outro livro com teor jornalístico que também terá sua resenha postada futuramente aqui, é The Bling Ring - Gangues de Hollywood. O livro, escrito por Nancy Jo Sales, relata a história de jovens que roubavam casas de famosos em Los Angeles e foi adaptado para o cinema, com a direção de Sofia Coppola. Ele também saiu de um artigo que Nancy escreveu para um jornal em L.A.

É esse jornalismo literário que mostra que nós, jornalistas, não somos apenas sensacionalistas ou manipuladores. Nós, os idealistas e amantes da profissão, buscamos nos aprofundar na notícia e transmitir isso ao leitor. Estou engatinhando ainda na profissão, quem sabe um dia já eu consiga correr nesta direção? 

domingo, 10 de março de 2013

O mundo dos jornalistas - Isabel Travancas

“O Mundo dos Jornalistas”, escrito pela antropóloga Isabel Travancas, oferece ao leitor uma viagem por salas de redações, pautas, repórteres e jornalistas. Utilizando-se de entrevistas com profissionais do campo e a visão deles de sua profissão, ela constrói uma obra que tenta retratar o cotidiano dos jornalistas.

Isabel inicia seu livro relatando as novas transformações que ocorreram nas salas de redação, na década de 90. Como a primeira edição do livro foi publicada em 1993, e informatização do processo jornalístico estava em andamento, são vários os momento do texto em que ela evidência essa mudança que os jornalistas, principalmente os mais antigos, estavam sofrendo. Escrever em um computador; informatizar o processo de entrega das reportagens; não ter mais contato diretamente com o papel; tudo isso foi uma transformação radical, que hoje, já informatizados, não prestamos atenção.

Foi interessante ver como Isabel procurou averiguar a rotina dos jornalistas, buscando como o trabalho realmente é feito, visualizando as dificuldades, as parcerias e acompanhando repórteres desde sua chegada a redação até a produção e diivulgação da notícia. Nessa jornada, ela acompanhou três jornalistas: um de jornal impresso, um de rádio e outro de TV, reparando em cada detalhe de como é feito o trabalho. Como cada campo é diferente, mesmo tendo a mesma função de levar a notícia ao receptor, a autora procurou mostrar vários lados do jornalismo, o que contribui para o leitor conhecer um pouco mais de cada faceta da ocupação.

Porém, talvez apenas um dia não seja suficiente para definir uma profissão tão dinâmica como a de jornalista e, por isso, a autora buscou mais fontes para realmente criar a identidade jornalística. Profissionais novos e antigos mostraram sua visão do jornalismo como profissão, falaram da importância da aparência, do egocentrismo que é associado à profissão, bem como insatisfação com os baixos salários e os a alta carga de trabalho.

Isabel Travancas elabora uma obra procurando mostrar a paixão que a maioria dos jornalistas tem por sua profissão. Suas várias entrevistas compõe a imagem que o jornalista tem de sim mesmo, alguém que trabalha na função de informar e deseja reconhecimento por isso. Também mostra como a sociedade vê o profissional, como alguém presunçoso e sem escrúpulos. No fim, a autora consegue definir bem o jornalista, mesmo sendo superficial em certos momentos, pela rapidez que as informações apuradas pedem. Ela é direta, mas busca a realidade e isso é o principal ponto do livro, procurar descobrir como realmente é o mundo dos jornalistas.

P.S. - Vocês podem perceber que ultimamente, o jornalismo está sendo muito comentado no blog. Como é final semestre, e tenho vários livros e resenhas para fazer na faculdade, resolvi aproveitar algumas e postar aqui. Daqui a pouco volto com as resenhas de livros de ficção.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A vida que ninguém vê



“A vida que ninguém vê”, de Eliane Brum, é recheado de histórias bem escritas e interessantes. As crônicas reunidas no livro começaram a ser publicadas em 1999, no jornal gaúcho Zero Hora, sempre contando com personagens do Rio Grande do Sul.

De maneira leve, mas ao mesmo tempo crítica, a autora traça perfis de pessoas simples, pouco conhecidas, mas que são o ponto central em seus próprios mundos. São cidadãos de bem, alguns um pouco diferentes do comum, lutando pelo que acham certo e por um pouco mais de dignidade na vida.

Poderíamos dizer que Eliane consegue enxergar a essência de seus entrevistados e traz isso para o papel. Seus textos transmitem de forma clara, e ao mesmo tempo poética, os fatos ocorridos com os personagens, sem deixar de lado as informações jornalísticas e as críticas sociais. Como ela mesma diz, muitos de seus personagens centrais são ignorados quando vistos nas ruas, marginalizados pela sociedade e invisíveis aos nossos olhos. São figuras que guardam dentro de si muitas histórias e lutas, mas que poucas vezes possuem a chance de se expressarem. Eliane deu essa chance a eles.

Seja um carregador de malas, um vendedor que incomoda todo mundo com seus gritos, um mendigo gente boa, um pai necessitado, um menino com dificuldades para se locomover, uma professora que deu vida a uma criança... Todos eles tiveram sua história contada.  Conhecemos essas pessoas a fundo e compartilhamos com elas algumas dores, surpresas e alegrias. Perfilhamos a fundo as curiosidades de suas vidas e as bizarrices cometidas por muitos. E pudemos ver algo além deles, algo que a autora passou para nós, a visão dela dos acontecimentos.

Os perfis traçados por Eliane conseguem configurar bem as pessoas, que são descrita, psicologicamente, pessoalmente ou profissionalmente, dependendo do foco que a autora quer fornecer ao seu texto. Mas na maioria dos textos o que prevalece são os sonhos dos personagens, de terem uma vida melhor e serem reconhecidos pela sociedade.

 Esse livro de jornalismo literário de Eliane Brum deve ser apreciado. Despojado, delicado e simples, talvez um pouco sensacionalista, mas nada agressivo. Para que traçar perfis de personagens já conhecidos por todos e que não possuem nenhuma similaridade com a vida da maioria das pessoas? É mais interessante o que Eliane bravamente se propôs a fazer, criar algo novo.

Diante de tantas obras literárias por aí, é imprescindível que todos nós tenhamos contato com esse livro, gostando ou não. Afinal, nem tudo que é de interesse coletivo, mas o conhecimento de novas formas de escrita e leitura são essenciais para todos.

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